Ambulatório da Dor

Fibromialgia e a fadiga crônica atingem mais o público feminino. Entenda as condições e o porquê

Por · 13/7/2026

Não é frescura ou fraqueza: dores em todo o corpo e cansaço extremo podem ser indicativo real de doenças como a fibromialgia e a síndrome da fadiga crônica, condições que atingem majoritariamente mulheres na faixa dos 30 a 50 anos.

Segundo a médica ortopedista Geovanna Andrade Labres de Souza, especialista em medicina da dor no Hospital Angelina Caron, "Milhões de pessoas no mundo vivem com essas condições. Apenas a fibromialgia afeta de 2% a 4% da população mundial".

Semelhanças e diferenças entre fibromialgia e fadiga crônica

 

A fibromialgia é uma doença que se caracteriza pela dor no corpo todo, nos músculos, nas articulações, na pele. “Mas, diferente de uma lesão comum, não tem nada quebrado ou inflamado para mostrar no exame”, explica Geovanna. “O que acontece é que o sistema nervoso fica hipersensível e passa a interpretar sinais normais como dor. É como se o volume da dor no cérebro estivesse sempre no máximo”, completa.


Já no caso da Síndrome da Fadiga Crônica (SFC), o problema reside em um cansaço tão intenso que impede a pessoa de fazer as atividades do dia a dia e não passa com descanso.

“O que torna essa doença única é que qualquer esforço físico ou mental, mesmo pequeno, piora muito os sintomas. A pessoa pode passar dias na cama depois de uma caminhada curta ou de uma conversa longa”, esclarece a especialista.

As duas condições causam cansaço extremo e dor, prejudicam a memória e o raciocínio, afetam muito mais as mulheres e não aparecem nos exames de sangue ou imagem. O que as diferencia é o sintoma central: enquanto a fibromialgia apresenta dor generalizada com a possibilidade de melhora com exercícios físicos, a SFC, que tem a fadiga extrema, piora com a atividade física.

Veja também: Viver com conforto: o novo ambulatório da dor do Hospital Angelina Caron

Os principais sintomas de cada uma delas são:

Fibromialgia:

• Dor generalizada que dura meses;
• Cansaço mesmo depois de dormir;
• Dificuldade para se concentrar e lembrar de coisas (as pacientes chamam de "névoa no cérebro");
• Dores de cabeça frequentes;
• Intestino irritado.


Síndrome da Fadiga Crônica (SFC):

• Cansaço profundo que limita atividades diárias, com duração superior a 6 meses,
com piora significativa após esforço físico ou mental;
• Sono não-reparador;
• Dores musculares e articulares;
• Tonturas, vertigens e desmaios.

Por que essas doenças afetam mais mulheres?

A predominância em mulheres envolve múltiplos fatores, lembra a médica do HAC. Entre eles, está a questão hormonal, já que o estrogênio influencia a forma como o corpo sente dor.

“As variações hormonais ao longo da vida, incluindo a menstruação, gravidez e menopausa, podem deixar o sistema nervoso mais sensível”, esclarece. 

O sistema de defesa das mulheres também é naturalmente mais ativo, avalia a médica, o que pode contribuir para essas condições.

“Além disso, muitas mulheres vivem sobrecarregadas de atividades dentro e fora de casa; ou passam por experiências difíceis e desenvolvem doenças de dor crônica”, reforça.

Outra questão levantada pela médica é a subvalorização da dor feminina, o que atrasou pesquisas e diagnósticos.

Desafios do diagnóstico

O diagnóstico é feito com base na história da paciente e incluem informações sobre quais sintomas ela tem, há quanto tempo e como eles afetam sua vida.

“Não existe um exame de sangue ou de imagem que confirme essas doenças. Os exames são feitos justamente para
descartar outras doenças que poderiam causar sintomas parecidos, como problemas na tireoide, lúpus ou artrite”, detalha.


A dificuldade de se chegar a uma conclusão vem exatamente desse fator. “Como os exames têm resultados normais, muitos profissionais acabam dizendo que não há nenhuma doença”, diz Geovanna.

Ao precisar passar por uma série de especialistas, o diagnóstico correto pode levar de três a sete anos, em média.

“Esse tempo longo de incerteza gera muito desgaste emocionalmente”, destaca.


Como elas afetam o dia a dia

Conviver com uma doença crônica vai muito além dos sintomas físicos. Dor constante, fadiga intensa e crises imprevisíveis acabam interferindo diretamente na rotina, no trabalho, nos relacionamentos e na saúde mental dos pacientes.

Muitas vezes, o impacto é silencioso — especialmente porque grande parte dessas condições não apresenta sinais visíveis. No ambiente profissional, é comum que pacientes precisem faltar ao trabalho durante períodos de crise ou tenham dificuldade para manter a mesma concentração e produtividade de antes.

Reuniões longas, excesso de estímulos, pressão por resultados e jornadas intensas podem piorar os sintomas e aumentar o desgaste físico e emocional. Em alguns casos, é necessário adaptar a rotina com horários flexíveis, trabalho remoto ou redução da carga horária.

Há também pacientes que precisam se afastar temporariamente — ou até definitivamente — de suas atividades profissionais, o que traz consequências financeiras importantes.

Os reflexos também aparecem dentro de casa e nas relações pessoais. Atividades simples do cotidiano, como cozinhar, limpar ou cuidar dos filhos, podem se tornar exaustivas durante as crises, gerando sentimentos de culpa e frustração. A dor e o cansaço frequentes impactam ainda a vida afetiva e a convivência social.

Como os sintomas variam de intensidade e podem surgir de forma inesperada, muitas pessoas acabam cancelando
compromissos com frequência. Além disso, ansiedade e depressão são comuns entre pacientes com doenças crônicas. Não porque a condição seja “psicológica”, mas porque viver com dor constante, limitações e incompreensão é emocionalmente desgastante.

Muitas pessoas relatam, inclusive, a sensação de perder a própria identidade ao longo da doença, como se não reconhecessem mais quem eram antes dos sintomas.

Outro desafio importante é o preconceito. Como muitos pacientes “parecem bem” fisicamente e, em alguns casos, apresentam exames normais, ainda é frequente ouvirem comentários como “isso é frescura”, “todo mundo sente cansaço” ou “é coisa da sua cabeça”. Esse tipo de julgamento pode vir até mesmo de familiares, colegas de trabalho e
profissionais de saúde.

Por isso, especialistas reforçam a importância de ampliar a informação sobre essas condições. A dor é real, mesmo quando não pode ser vista. A ciência já demonstrou que doenças crônicas podem alterar o funcionamento do sistema nervoso e comprometer profundamente a qualidade de vida dos pacientes.

Não se trata de falta de esforço ou de fraqueza — ninguém escolhe viver com dor.

Tratamento multidisciplinar é essencial para fibromialgia e SFC


Não existe um único medicamento capaz de resolver todos os sintomas da fibromialgia e da SFC. Por isso, o tratamento mais indicado é o multidisciplinar, com diferentes profissionais atuando de forma integrada para melhorar a qualidade de vida do paciente.

A médica especialista em dor ou o reumatologista é responsável por avaliar os sintomas, fechar o diagnóstico e indicar medicamentos que ajudem a modular a dor, melhorar o sono e reduzir o impacto das crises no dia a dia. Já a fisioterapia tem papel importante no fortalecimento muscular, na recuperação dos movimentos e no alívio das dores por meio de técnicas específicas.

O acompanhamento psicológico também é fundamental, especialmente porque viver com dor constante afeta diretamente o emocional. A psicóloga ajuda o paciente a desenvolver estratégias para lidar com as limitações, a ansiedade e o desgaste provocado pela doença.

A nutrição pode contribuir com orientações alimentares que favoreçam o bem-estar e auxiliem na redução de processos inflamatórios, enquanto o educador físico adapta exercícios seguros e respeita os limites de cada pessoa.

Outro ponto importante é o cuidado com o sono. Distúrbios do sono costumam piorar significativamente a dor, o cansaço e a dificuldade de concentração, por isso o acompanhamento com um especialista na área pode fazer grande diferença no tratamento.

Mais do que eliminar completamente a doença, o objetivo é controlar os sintomas, reduzir a dor, melhorar a disposição e permitir que o paciente volte a realizar atividades importantes da rotina com mais autonomia e qualidade de vida.

É possível ter qualidade de vida?

Sim — e é importante reforçar isso. Com tratamento adequado e uma rede de apoio acolhedora, muitas pessoas conseguem retomar atividades que gostam, voltar ao trabalho, conviver socialmente e recuperar parte da rotina, mesmo convivendo com a doença.

Entre os principais aliados estão a prática de atividade física no ritmo adequado, sono de qualidade, acompanhamento emocional, medicação quando necessária e, principalmente, compreensão por parte das pessoas ao redor. Entender a própria condição também ajuda no enfrentamento da doença, reduzindo inseguranças e tornando as crises mais manejáveis.

Para pacientes, especialistas reforçam que a dor é real e merece atenção. Buscar ajuda não é sinal de fraqueza, mas um passo importante para recuperar qualidade de vida e encontrar formas mais saudáveis de conviver com a doença.

Já para familiares e pessoas próximas, o acolhimento faz diferença. Acreditar no relato do paciente, respeitar limites e oferecer apoio no dia a dia pode ser tão importante quanto parte do tratamento médico.

A Dra. Geovanna Andrade atende no Ambulatório da Dor do Hospital Angelina Caron.

Os atendimentos particulares ou via convênios podem ser agendados pelo WhatsApp: (41) 3679-8100.

Para pacientes do SUS, o encaminhamento deve ser solicitado na Unidade Básica de Saúde de referência do paciente.

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