Transtorno alimentar: como identificar e ajudar quem sofre com o problema
Mais de 70 milhões de pessoas são afetadas por transtornos alimentares no mundo, de acordo com o Ministério da Saúde. Apesar dos números expressivos, essas doenças ainda são cercadas por estigmas e frequentemente associadas apenas à busca pelo corpo ideal ou questões estéticas.
A nutricionista Adriane Fátima Kulibaba, coordenadora de Nutrição Clínica do Hospital Angelina Caron, explica que os transtornos alimentares são doenças psiquiátricas complexas, que afetam tanto a saúde física quanto emocional dos pacientes.
“Um dos maiores equívocos é achar que se trata apenas de vaidade ou da busca pelo corpo perfeito. Os transtornos alimentares são quadros caracterizados por profundas alterações no comportamento alimentar e por distorções relacionadas ao peso e à imagem corporal, que podem causar sérios prejuízos clínicos, psicológicos e sociais”, afirma.
Segundo a especialista, essas condições podem atingir pessoas de diferentes idades, gêneros e perfis, exigindo atenção aos sinais precoces para aumentar as chances de recuperação.
Quais são os principais transtornos alimentares?
Anorexia nervosa
A anorexia nervosa é caracterizada pela perda de peso voluntária, intensa restrição alimentar e medo excessivo de ganhar peso. A pessoa apresenta uma percepção distorcida do próprio corpo e passa a exercer um controle rígido sobre a alimentação.
Bulimia nervosa
Na bulimia nervosa, ocorrem episódios recorrentes de compulsão alimentar seguidos de comportamentos compensatórios, como vômitos autoinduzidos, uso de laxantes, dietas extremamente restritivas ou prática excessiva de exercícios físicos. A preocupação com peso e a aparência costuma ser intensa.
Transtorno da compulsão alimentar
O transtorno da compulsão alimentar periódica é marcado pela ingestão de grandes quantidades de alimentos em curto período, acompanhada da sensação de perda de controle. Diferentemente da bulimia, não há comportamentos compensatórios para evitar o ganho de peso. Após os episódios, são comuns sentimentos de culpa, vergonha e sofrimento emocional.
Transtorno alimentar restritivo evitativo
Conhecido pela sigla TARE, esse transtorno provoca restrição alimentar motivada por fatores como sensibilidade a texturas, sabores, medo de engasgar ou falta de interesse em comer. Nesses casos, não existe preocupação com peso ou aparência corporal.
Outros transtornos
Também podem ocorrer quadros como a ortorexia, caracterizada pela obsessão por uma alimentação considerada perfeita ou saudável, e a vigorexia, marcada pela preocupação excessiva com musculatura e composição corporal.
Como identificar os sinais de alerta?
De acordo com Adriane, os sintomas emocionais costumam aparecer antes mesmo das alterações físicas mais evidentes. Por isso, familiares, amigos e educadores devem estar atentos a mudanças de comportamento.
Entre os principais sinais estão:
● Insatisfação constante com o próprio corpo;
● Perda ou ganho significativo de peso em curto período;
● Preocupação excessiva com calorias, peso e aparência física;
● Restrição alimentar crescente;
● Eliminação de grupos alimentares inteiros sem orientação profissional;
● Idas frequentes ao banheiro após as refeições;
● Exercícios físicos realizados de forma compulsiva;
● Oscilações de humor, irritabilidade e isolamento social.
“A identificação precoce é fundamental para evitar que o quadro evolua e cause consequências mais graves para a saúde física e mental”, destaca a nutricionista.
Por que adolescentes são mais vulneráveis?
Embora possam afetar pessoas de qualquer idade, os transtornos alimentares costumam surgir com frequência durante a adolescência, período marcado pela construção da identidade, da autoestima e da relação com o próprio corpo.
Segundo Adriane, muitos jovens iniciam mudanças alimentares com a intenção de adotar hábitos mais saudáveis, mas acabam interpretando de forma inadequada mensagens relacionadas ao emagrecimento ou à prevenção da obesidade.
“Nessa fase da vida, fatores como influência familiar, comentários sobre peso, dietas restritivas, autoestima e percepção da imagem corporal podem impactar diretamente a relação dos adolescentes com a alimentação”, explica.
Outro fator importante é a crescente exposição às redes sociais. A comparação constante com imagens altamente editadas, a valorização de padrões estéticos muitas vezes inalcançáveis e a disseminação de dietas extremas sem respaldo científico podem aumentar a insatisfação corporal e favorecer comportamentos alimentares prejudiciais.
Quais são as consequências dos transtornos alimentares?
Quando não recebem tratamento adequado, os transtornos alimentares podem provocar diversas complicações físicas e emocionais.
Entre as consequências físicas estão:
● Desnutrição;
● Perda de massa muscular;
● Deficiências vitamínicas e minerais;
● Alterações hormonais;
● Problemas gastrointestinais;
● Osteopenia e osteoporose;
● Comprometimento do crescimento em adolescentes.
Já no aspecto emocional, podem surgir:
● Ansiedade;
● Depressão;
● Baixa autoestima;
● Isolamento social;
● Sentimentos intensos de culpa e vergonha;
● Maior risco de automutilação e comportamento suicida.
Como funciona o tratamento?
O tratamento dos transtornos alimentares exige acompanhamento multidisciplinar e deve abordar tanto os aspectos físicos quanto os emocionais da doença.
Médicos, psicólogos, psiquiatras e nutricionistas atuam em conjunto para promover a recuperação do paciente. No caso da nutrição, o trabalho vai além da elaboração de um plano alimentar.
“O objetivo não é apenas promover um bom estado nutricional, mas também ajudar na mudança de atitudes e comportamentos relacionados à alimentação e à imagem corporal. É um processo de reconstrução da relação do paciente com a comida e consigo mesmo”, afirma Adriane.
Quando procurar ajuda?
A orientação é buscar avaliação profissional sempre que houver sofrimento significativo relacionado à alimentação, ao peso ou à imagem corporal.
Quanto mais cedo o transtorno for identificado, maiores são as chances de recuperação e menores os riscos de complicações físicas e emocionais.
Os transtornos alimentares têm tratamento e a recuperação é possível. Informação, acolhimento e suporte especializado são fundamentais para ajudar pacientes e familiares a enfrentar a doença e desenvolver uma relação mais saudável com a alimentação e com o próprio corpo.