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Fevereiro Roxo: conheça os avanços no tratamento do Alzheimer

O mês de fevereiro, o Fevereiro Roxo, é dedicado também à sensibilização sobre a doença de Alzheimer. Essa doença neurodegenerativa – ou seja, que causa a deterioração
progressiva de células do sistema nervoso – é a forma mais comum de demência em idosos, explica o médico Eduardo Hummelgen, neurologista do Hospital Angelina Caron (HAC).

“O Alzheimer causa o comprometimento das funções cognitivas, afetando principalmente a memória, o pensamento e o comportamento. E é importante reforçar: não é uma parte normal do envelhecimento, mas sim uma doença”, diz.

O quadro é difícil e o médico lembra que, por muito tempo, tratou-se apenas de seus sintomas, mas já existe um avanço, com medicamentos que tratam as causas biológicas do Alzheimer.

Alzheimer, aos 85 anos ou mais, estima-se que cerca de um terço das pessoas apresentem algum
grau da doença.

 

O que é o Alzheimer
A Doença de Alzheimer, ou Mal de Alzheimer, é um transtorno neurológico degenerativo que se manifesta, principalmente, pela perda da memória recente. Seus efeitos têm início quando ocorrem falhas no processamento de determinadas proteínas no sistema nervoso central. Fragmentadas, elas tornam-se tóxicas e provocam a perda progressiva de neurônios em regiões específicas do cérebro.

Entre as áreas mais afetadas estão o hipocampo, responsável pela formação da memória, e o córtex cerebral, essencial para funções como linguagem, raciocínio, reconhecimento de estímulos sensoriais e pensamento abstrato.

População em risco: quem pode desenvolver a doença
Hummelgen reforça que o risco de desenvolver Alzheimer cresce de forma exponencial conforme os anos passam. O marco inicial é a partir dos 65 anos, quando a prevalência começa a subir de forma significativa. Mas, aos 85 anos ou mais, estima-se que cerca de um terço das pessoas apresentem algum
grau da doença. “É importante notar que nem todo mundo que envelhece terá a doença”, pondera.

O médico fala em Reserva Cognitiva, que sugere que pessoas que mantiveram o cérebro ativo (estudos, leitura, novos idiomas, vida social) criam “caminhos alternativos” entre os neurônios, o que permite que o cérebro continue funcionando bem mesmo que algumas áreas comecem a ser afetadas pela doença.

Como é feito o diagnóstico do Alzheimer
O diagnóstico da doença é um dos primeiros grandes desafios, já que não existe um único exame que possa ser realizado para determinar a ocorrência ou não da doença. De acordo com o neurologista do Angelina Caron, o diagnóstico é feito por exclusão e combinação. Tudo começa com a avaliação clínica e anamnese, seguidas por testes cognitivos (como memória, atenção, linguagem e raciocínio) e exames de imagem e laboratório. A ressonância magnética ajuda a observar se há atrofia no hipocampo (centro da memória) e a excluir outras causas, como pequenos AVCs ou tumores.

O PET-CT de Amilóide consegue detectar a presença das proteínas tóxicas no cérebro anos antes dos sintomas graves aparecerem. Exames de sangue são feitos para descartar “falsos Alzheimers”, como deficiência grave de Vitamina B12 ou problemas na tireoide, que podem causar confusão mental reversível. Em alguns casos, analisa-se o líquido da espinha em busca de biomarcadores da doença.

Avanços importantes no tratamento
Para Hummelgen, o tratamento do Alzheimer em 2026 vive um momento histórico de transição. “Pela primeira vez, saímos de uma era focada apenas em remediar sintomas para uma fase de medicamentos que atacam a causa biológica da doença”, comemora.

Hoje o tratamento é dividido em três frentes principais:

Novos medicamentos modificadores (Imunoterapia)
A grande novidade, de acordo com o especialista, são os anticorpos monoclonais (proteínas produzidas em laboratório que mimetizam o sistema imunológico) aplicados via infusão que “limpam” as placas de proteína beta-amiloide do cérebro. Estes remédios dão ao paciente mais meses ou anos de independência para realizar tarefas
básicas, como se vestir, comer sozinho e reconhecer familiares. São dois já aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no Brasil – o Lecanemabe (Leqembi), que consegue retardar o declínio cognitivo em cerca de 27% em pacientes na fase inicial; e o Donanemabe (Kisunla), que foca na remoção agressiva das placas amiloides, permitindo que alguns pacientes interrompam o tratamento após a “limpeza” completa do cérebro.

Medicamentos para controle de sintomas
Os medicamentos para controle dos sintomas ainda são a base do tratamento, diz o médico. São utilizados os inibidores da Colinesterase (Donepezila, Galantamina, Rivastigmina), que melhoram a comunicação entre os neurônios, ajudando na memória e atenção; Memantina, geralmente usada em estágios moderados a avançados, para proteger os neurônios contra o excesso de glutamato (que pode ser tóxico); e de controle de comportamento, para ajustar o sono, reduzir a ansiedade e a agressividade, o que reduz drasticamente o estresse do cuidador.

Terapias não farmacológicas
O médico defende a associação de estimulação cognitiva, com exercícios para o cérebro e estímulo à realização de atividades diárias, que ajudam a manter as conexões neurais ativas por mais tempo; e Fisioterapia e Terapia Ocupacional, para evitar quedas e adaptar a casa, mantendo a autonomia física do idoso. Além de dieta e do exercício físico, que ajuda a liberar hormônios (como a irisina) que protegem o cérebro. São medidas que, embora não consigam impedir o avanço da doença,
alteram a forma como o cérebro lida com os danos.

Desafios para pacientes e cuidadores
Além dos impactos clínicos, o Alzheimer provoca desafios emocionais, sociais e práticos que afetam profundamente pacientes e familiares. Segundo o neurologista, um dos aspectos mais difíceis da doença está ligado à perda progressiva da autonomia e da identidade. “No início, muitos pacientes percebem os lapsos de memória e isso gera angústia, medo e até depressão. Existe um sofrimento real ao perceber que algo não está funcionando como antes”, explica.

Com o avanço da doença, surgem dificuldades de comunicação, como a dificuldade para encontrar palavras, além da necessidade de abandonar atividades do dia a dia, como dirigir, cozinhar ou administrar o próprio dinheiro. “Essa perda de independência impacta diretamente a dignidade do paciente”, afirma o médico.

Para familiares e cuidadores, o desafio também é intenso. “Falamos muito em luto antecipado, porque a família vai, aos poucos, perdendo características da pessoa que ama, mesmo com ela ainda presente”, diz Hummelgen.

A sobrecarga física e emocional do cuidador é outro ponto de atenção. “Quando uma única pessoa assume todos os cuidados, o risco de esgotamento é alto”, alerta. Somam-se a isso os custos do tratamento e, muitas vezes, o isolamento social causado pela incompreensão em relação aos sintomas da doença.